
Passando a Mensagem (VIII) …
Para quem a Mensagem fizer sentido.
Queridas Pessoas,
Abro novamente hoje a rubrica do “Passando a Mensagem”, onde as mensagens que são passadas são a pedido das Forças de Luz que me guiam e orientam, para vos falar sobre um tema que é comum a todos/as nós – o ego.
Vou já abrir caminho à conversa a partir deste ponto de partida: não faças do ego teu inimigo. Oh sim, bem sei que isto contraria muitas das regras comuns do Caminho, e não é minha intenção dizer-te que a verdade sou eu que a tenho. Não tenho. “A” verdade. Mas tenho a minha verdade, a verdade a partir da qual me movo e a partir da qual trabalho/trabalhamos.
Por isso, não quero de todo impor-te uma nova ideia, a minha intenção é oferecer-te outra perspectiva. Farás com ela o que quiseres, és livre.
Vamos partir do entendimento de que o ego é uma parte de nós. Uma parte forjada maioritariamente a partir da experiência tridimensional, intrinsecamente conectada à mente racional e analítica. Significa isto que o ego vai-se formando a partir dos estímulos e modelos que a vida nos traz logo desde o momento em que nascemos: a educação, a cultura, a sociedade, os exemplos que observamos, as pessoas que são para nós uma referência, a forma como as experiências que vivemos nos afectam – tudo isso, junto, vai moldando as nossas opiniões, ideias, crenças, ideais, acções, reacções, convicções… Vai moldando a nossa personalidade, o nosso sentido de “Eu”, o sentido que temos de “nós mesmos/as” – é isto, o ego!
Perceber então que, quando escolhes “matar o ego”, estás a escolher “matar” a tua personalidade. Simples assim.
Então, aquilo que aqui – “aqui”, nos nossos trabalhos de desenvolvimento pessoal e espiritual – sugerimos, é aprender a construir um sentido de diferenciação entre o que é o “ego saudável” e o “ego doente”.
Exemplo prático: imaginemos alguém que cresce numa casa onde um dos progenitores impõe constantemente a sua autoridade sobre o outro. E imaginemos que, para esta pessoa, a sua pessoa de referência é a que impõe a autoridade. Esta pessoa vai crescer acreditando que deve impor autoridade aos outros. Vai crescer a querer mandar nos outros, a querer ser superior aos outros, a querer impor aos outros a sua vontade. Vai criar um ego pouco empático, cheio de si, egoísta.
Aqui temos um ego doente. Inflado. Maniento. Falta-lhe sensibilidade, falta-lhe empatia, falta-lhe humildade.
Agora imaginemos que, em vez da pessoa ter como referência a pessoa que é autoritária, tem como referência a pessoa oprimida. Esta pessoa vai crescer permitindo que os outros se coloquem acima de si mesma. Vai calar a sua opinião, oprimir as suas vontades, ignorar o seu querer. Vai viver em função daqueles que considera superiores e sentir-se, muitas vezes, diminuída perante a vida e as suas possibilidades.
Aqui também temos um ego doente. Amorfo. Apagado. Falta-lhe afirmação pessoal, falta-lhe espírito crítico, falta-lhe amor próprio.
Imaginemos agora que a pessoa que se tornou autoritária um dia decide fazer um caminho pessoal de autoconhecimento, desenvolvimento pessoal e espiritual, essas coisas… E que um dia descobre esta verdade sobre si mesma. Vai doer, certamente. Mas ela decide curar o seu ego doente. Então, vai questioná-lo: vai conhecer as suas razões e motivações, porquê que realmente é assim; vai perceber que lhe falta sensibilidade e entrar em contacto com as suas emoções, com as emoções dos outros; vai aprender a escutar os outros, a respeitar os outros, a respeitar os limites dos outros… Vai aprender, eventualmente, que a sua autoridade vem de uma personalidade forte. E vai aprender a utilizar a força da sua personalidade de forma construtiva e positiva e não de forma destrutiva e impositiva.
E isto é um ego saudável.
E a pessoa que se tornou oprimida, decidindo percorrer esse mesmo caminho pessoal e descobrindo esta verdade sobre si mesma, escolhendo curar o seu ego doente, vai fazer exactamente o mesmo: questioná-lo, conhecer as suas razões e motivações (ou falta delas!), e aprender, ou reaprender, a amar-se. A valorizar-se. Vai esculpir o seu amor próprio, encontrar a sua voz, aprender a fazer uso da força da sua assertividade para definir limites no seu território pessoal. Acabará por encontrar a sua afirmação pessoal, o seu direito a ser ela mesma.
E isto é um ego saudável.
Agora imaginemos que a pessoa autoritária decide “matar o seu ego”. Significa isso que ela vai assumir um comportamento inverso ao da autoridade, tornando-se – aparentemente! – permissiva. Aqui é que está a armadilha – continua a ser o ego que modela esta mudança de comportamento. É o ego que faz isso! Só que agora o ego tem a ordem de se auto-anular, de oprimir um comportamento. Ora oprimir, convenhamos, nunca dá bom resultado… Oprimir é enclausurar uma força activa. Com o tempo, acabará por ter que se soltar, de uma forma ou de outra… E pode soltar-se, por exemplo, sob a forma de uma atitude em que a pessoa “agora” se considera “iluminada” e portanto “acima do ego e da razão” e, portanto, “acima do comum dos humanos”, e o que ela diz “é que é verdade”, os outros “não sabem nada, estão iludidos”… Ego doente. É só ego doente.
Já a pessoa oprimida, que decide “matar o seu ego” e que já de si tem um ego amorfo e apagado… Torna-se ainda mais vulnerável à manipulação externa… Acabando, quase de certeza, por se tornar seguidora de alguém, certificando-se que cumpre todas as normas que a pessoa dita, pois o vazio de si mesma gera uma carência cada vez maior… Ego doente. Mais doente ainda!
Ouso dizer que não acredito ser possível matar o ego. Assim como não é possível matar as emoções. Podemos, sim, oprimi-las – ficaremos doentes e desconectados da nossa realidade inteira! Assim como podemos, sim, oprimir o ego – ficaremos igualmente doentes e desconectados da nossa realidade inteira.
Este texto já vai longo e não quero cansar a vista (e a mente!) de quem o ler, por isso deixo só mais duas coisinhas, até assim em modo tópico, que considero deveras importantes de nelas se reflectir:
1) Criticar, só porque sim, só porque os outros também fazem, sem sentir, sem observar, sem informação com conteúdo, sem se pôr no lugar do outro, leva a um julgamento precipitado e, muito possivelmente, injusto.
Mas ANULAR o espírito crítico atrás da onda de “matar o ego” significa DEIXAR DE PENSAR pela própria cabeça! Não queremos isso. Não-queremos-isso. Porque isso vai tornar-nos (ainda mais!) vulneráveis à manipulação externa – por mais fofinha e aliciante que possa parecer!
Pensar, questionar, observar, analisar, avaliar, ponderar, reflectir – é absolutamente necessário para preservar a nossa identidade pessoal, a nossa afirmação pessoal, o nosso poder pessoal! O nosso espírito crítico é absolutamente necessário para nos auxiliar a discernir e a fazermos as NOSSAS PRÓPRIAS ESCOLHAS.
2) Para concluir, reflectir só mais nisto: acredito que “o problema” do ego é ser extremamente literal. Um bocadinho “quadrado”, como eu carinhosamente costumo dizer. E isto deve-se ao seu modus operandi – o de se ir forjando, naturalmente, mediante as nossas experiências e vivências. Ora na nossa sociedade actual não é prática comum a de fomentar o autoconhecimento e a gestão interna de forma natural… Pouco nos estimulam a pensar, ou a sentir, ou a questionar o que em nós se passa e porquê. Há até quem acredite que tudo isso é uma parvoíce e uma perda de tempo. E isso leva-nos a agir de forma impulsiva, pouco ou nada questionando o nosso interior, reproduzindo comportamentos e atitudes de forma mecânica e automática, abraçando opiniões e crenças por osmose. Um ego literal que nem sequer é questionado é qualquer coisa deste género: se alguém me trai, com toda a dor que isso implica, o meu ego automaticamente vai defender-se de todas as pessoas. Todos serão alvos de desconfiança – esteja eu consciente ou inconsciente deste mecanismo! Fica doente, claro.
Intrinsecamente conectado à mente racional e analítica, à razão, o ego torna-se assim num aprendiz de hábitos que se firmam com o treino. Se eu concluo que devo desconfiar e treino-me a desconfiar, habituo-me a desconfiar. Consciente e/ou inconscientemente. Inteligente como é (oh sim, nunca subestimem a inteligência de um ego!), irá munir-se de todas as razões e mecanismos operativos para alicerçar essa crença de que “não pode confiar em ninguém”. E é aqui que está o desafio – ajudá-lo a desconstruir a crença limitante, ajudá-lo a abrir horizontes.
Cabe-me a mim, com TUDO o que eu sou, dizer-lhe: “não sejas quadrado, vá… não te vão TODOS trair!”, e, com amor, com o amor que me move, ajudá-lo a encontrar o equilíbrio. O equilíbrio entre permitir-se confiar, e aprender a defender-se de quem não deve confiar. De forma razoável, equilibrada. Isto ajudar-me-à a definir limites e a compor mais um pouco a estrutura do meu poder pessoal – ego saudável.
Fazemos isso a partir da nossa própria consciência. A consciência que vamos adquirindo com o nosso próprio caminho pessoal. E o crescimento e amadurecimento que vamos adquirindo ao longo do caminho é o crescimento e amadurecimento do nosso ego – se escolhermos curá-lo ao invés de o anular.
A escolha é tua.
De coração,
Johanna Samna in Semeando
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